sexta-feira, 30 de junho de 2017

Sexta 30

Dois passeios por Portugal. Braga e Lisboa.

Antonio Variacoes: Eu so estou bem onde eu nao estou. Aqui.

Falando de Provincetown, no Cabo Bacalhau.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

José Craveirinha - cinco poemas

Um homem nunca chora
Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
Pena
Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
Mas não me chames negro.
Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.
Nem desconfia
Todo o poeta quando preso
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.
O chefe da polícia
de defesa da segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.
E nem desconfia.
Guerra
Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
…………………………………
Ah, cidades!
Favos de pedra
macios amortecedores de bombas.
Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.

alfabeto para o anagrama

Nao ha mais palavras. Apenas letras. A melhor tecnica e cortar com uma tesoura.

ANALISA COEN 
ALEX BURNS 
STEPHEN LEWIS MORRIS –
CECILIA CAVELIER RICCARDI
ALEXANDRINHO SIFUENTES


A metamorfose de Kafka

Talvez o texto mais importante do seculo XX. Aqui.

Inferno - Analisa

Tenho certeza que Professor Agripino é o Diabo. Hoje durante a aula dele, minha mente quebrou. Aparentemente tudo [o que] eu aprendia está incorreto. O senhor disse que o afirmativo do imperativo é o mesmo do indicativo do presente...tudo eu sei é uma mentira. Cada palavra [que] ele falou fez menos e menos sentido. Eu sinto como uma criança ainda; quero chorar. Professor Agripino é um casmurro quem gosta do sofrimento de seus alunos. Não sei por que não podemos revisar coisas mais importantes, úteis e fáceis.... Espero que a prova amanhã não vai ser terrível, mas eu já sei [que vai].

Tenho certeza que Professor Agripino é o Diabo. Hoje durante a aula dele, minha mente quebrou. Aparentemente tudo o que eu aprendia está incorreto. O senhor disse que o afirmativo do imperativo é o mesmo do indicativo do presente...tudo eu sei é uma mentira. Cada palavra que ele falou fez menos e menos sentido. Eu sinto como uma criança ainda; quero chorar. Professor Agripino é um casmurro que gosta do sofrimento de seus alunos. Não sei por que não podemos revisar coisas mais importantes, úteis e fáceis.... Espero que a prova amanhã não vá ser terrível, mas eu já sei que vai.

Ser terrível. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Meu sofrimento hoje na escola de português


Quando eu me achava um pouco confortável com a gramática portuguesa, o professor veio e destruiu as minhas ilusões. Agora vejo que há muito a aprender.

MAS, é bonito aprender coisas, e saber que eu não sou a única pessoa que batalha com isto. A aprendizagem nunca termina.

A Grande Muralha da Gramática

Tudo o que temos aprendido até agora está errado.
Os gigantes da lingua portuguesa, os livros de gramática, as placas na rua e os mesmos falantes nativos da lingua através dos países lusófonos.
Não podemos confiar em eles- não podemos confiar em ninguém.
O céu caiu, nosso mundo de português está-se a desmoronar, e esperam de nos que reconstruamos a grande muralha da gramática com nossas próprias mãos e um manual de instruçoes incompreensível entitulado "Gramática Reflexiva" antes das 10.40 da quinta-feira, 29 de Junho; amanhã.


Tudo o que temos aprendido até agora está errado.
Os gigantes da língua portuguesa, os livros de gramática, as placas na rua e os mesmos falantes nativos da língua através dos países lusófonos.
Não podemos confiar neles - não podemos confiar em ninguém.
O céu caiu, nosso mundo de português está-se a desmoronar, e esperam de nós que reconstruamos a grande muralha da gramática com nossas próprias mãos e um manual de instruções incompreensível intitulado "Gramática Reflexiva" antes das 10.40 da quinta-feira, 29 de Junho; amanhã.
Como será possível?

O que sofri na escola de português hoje

   (Estivo)
Quase tudo que pensei que eu sabia a respeito de gramática foi destruída hoje
O afirmativo não existe mais, porque agora seja negativo
Minha mente explodiu e temos que limpar e reconstruir o cérebro
E agora eu não posso mais tocar guitarra
Que horror! Como é que possa viver mais?
Tudo que era desejável agora é desagradável e ao contrário
Acho que agora adoro música pagode, sertaneja, e gaúcha
Agora mesmo eu quero comprar um caminhonete e jogar futebol americano
Espero que minha esposa e os meus filhinhos ainda vão me amar
Eu não quero ser mais. Gramática foi o fim de Estivo
Agora eu sou Stephen


A grande muralha da gramática (Cecília) 
Tudo o que temos aprendido até agora é errado


Inferno (Analisa) 
Tenho a certeza de que o professor Agripino é o diabo



    (Alexandrinho)

Este é o meu sofrimento hoje na escola de português




 O momento da verdade (Alex)
Hoje eu sufri bastante. Tudo o que eu pensei que já sabia hoje descobrí que estava errado.
Às vezes a gramática me faz sentir meia boba, e percebo que tenho muito para memorizar. Mas só com fazer as coisas erradas vou aprender e avançar.  E só com trabalho duro que vou avançar. Se não fosse difícil, acho que precisaria estar aqui.    (E só com trabalho duro vou/é que vou avançar)
  
Corrigido: 
Hoje eu sofri bastante. Tudo o que eu pensava que já sabia hoje descobri que estava errado.
Às vezes a gramática me faz sentir meia boba, e percebo que tenho muito para memorizar. Mas só fazendo as coisas erradas vou aprender e avançar.  E só com trabalho duro vou avançar. Se não fosse difícil, acho que não precisaria de estar aqui.





A filha sempre será a filha (Estivo)

A filha sempre será a filha
Pais prestem atenção aos filhos
Minha filha sempre vai me esperar
Minha família sempre terá medo quando eu vou para a guerra
Mostre o seu amor antes que seja tarde
Todo momento com a familia é um dadiva
A filha sempre será a filha

A filha sempre será a filha
Pais, prestem atenção aos filhos
Minha filha sempre vai me esperar
Minha família sempre terá medo quando eu for para a guerra
Mostre o seu amor antes que seja tarde
Todo momento com a família é uma dádiva
A filha sempre será a filha

Estivo

terça-feira, 27 de junho de 2017

3. Um país conservador?

O casamento.
Alemanha. 2017? 2018?
Portugal 2010.

O divórcio.

A IVG.

A minha casinha: o filme.
Versão dos Xutos e Pontapés: aqui.


O 25 de Abril
Trabalho duma escola. Aqui.
"Eu só queria um pónei" - uma memória do 25 de Abril de 1974. Aqui




O adamastor. Aqui.

Fernão Mendes Pinto:

 (...) O processo de que Mendes Pinto se serve para verberar os abusos cometidos pela nossa gente é engenhoso. Não faz ele as críticas em nome próprio: geralmente coloca-as, por artifício literário, na boca de nativos.
Algumas dessas personagens nativas são mero produto de ficção. Quem sabe até se as criou para não arranjar problemas com quaisquer pessoas? As palavras ásperas que por intermédio delas profere, como suas, dificilmente passariam impunes; mas, como dos aborígenes, ficavam sob a responsabilidade dos mesmos.

Uma destas figuras típicas é o menino prodígioa cujo pai António de Faria roubou, na ilha dos Ladrões, tudo quanto tinha. Feito prisioneiro, o menino viu-se amimado pelo pirata português, que prometeu criá-lo como filho. Perante esta atitude incoerente, disse-lhe a criança:

«Não cuides de mim, inda que me vejas menino, que sou tão parvo que possa cuidar de ti que, roubando-me meu pai, me hajas a mim de tratar como filho. E, se és esse que dizes, eu te peço muito, muito, muito que me deixes botar a nado a essa triste terra onde fica quem me gerou,porque esse é o meu verdadeiro pai,  com o qual quero antes morrer ali naquele mato, onde o vejo estar-me chorando, que viver entre gente má como vós outros sois».

Como alguém o repreendesse pelo que dizia, continuou:

«Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi a louvar a Deus, depois de fartos, com as mãos levantadas e com os beiços untados, como homens que lhe parece que basta arreganhar os dentes ao céu, sem satisfazer o que teem roubado. Pois entendei que o Senhor da Mão Poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves, quanto depois de mortos conhecereis, no rigoroso castigo da sua divina justiça».

Este menino não pode deixar de ser uma criação literária, até porque, nas expressões que usa, se assemelha a um profeta bíblico.


[Do blog «Literatura na Net», aqui.]

Fausto: por este rio acima.


Romance de Diogo Soares
Diogo Soares
O grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais
Comanda sessenta mil homens
De terras estranhas
Vencendo e lutando
Por quem paga mais
Eficaz nos sermões
Insinuante pois
Ganhou a simpatia
De príncipes e samurais
Já é governador
Do reino de Pegu
Mais forte do que o rei
Mais rico por golpes mestrais

Naquela cidade
Vivia um mercador
De nome Mambogoá
De fortuna sem fim
E naquele dia
O dia das bodas
Casava uma filha
Com Manica Mandarim
Diogo Soares passou por ali
Ao saber da festa
Felicitou noivos e pais
E a noiva tão linda
Ofereceu-lhe um anel
Agradecendo a honra
Por gestos puros e sensuais
Então o galego
Em vez de guardar
O devido decoro
Prendeu-a e disse-lhe assim
"Ó moça formosa
És minha, só minha
A ninguém pertences
A ninguém, senão a mim"

O pai Mambogoá
Ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha
Ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus
Os joelhos em terra
No retrato da dor
Pedindo e implorando num pranto
"Eu peço-te Senhor
Por reverência a Deus
Que adoras concebido
No ventre sem mancha e pecado
Não tomes minha filha
Não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão
Que eu morro tão abandonado"

Mas Diogo Soares
Mandou matar o noivo
Que chorava abraçado
À moça assustada
Tremendo
E a noiva estrangulou-se
Numa fita de seda
Antes que a possuísse
À força o sensual galego
A terra e os ares
Tremeram com os gritos
Do choro das mulheres
Tamanhos que metiam medo
E o pai Mambogoá
Pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino
Acorda a cidade em sossego
"Ó gentes Ó gentes
Saí como raios
Na ira das chuvas
Na ventania do açoite
E o fogo consuma
Seus últimos dias
E lhe despedace
As carnes no meio da noite"

Em menos de um credo
Numa grande grita
P'lo amor dos aflitos
Juntou-se ao velho o povo inteiro
Com tamanho furor
E sede de vingança
Arrastaram-no preso
Diogo Soares ao terreiro
E o povo a clamar
Que a sua veia seja
Tão vazia de sangue
De quanto está o inferno cheio
E subiu ao cadafalso
Cada degrau beijou
Murmurando baixinho
O nome de Jesus a meio

Seu filho Baltasar Soares
Que vinha de casa
O qual vendo assim
Levar seu pai
Lançou-se aos seus pés a chorar
E por largo tempo abraçados
No abraço dos mortais

"Senhor porque vos levam
Cruéis e vingativos
Senhor porque vos batem
E porque vos matam medonhos? "
"Pergunta-o aos meus pecados
Que eles to dirão
Que eu vou já de maneira
Que tudo me parece um sonho"

E foram tantas pedras
Sobre o padecente
Que este morreu bramindo
O rosário dos seus pecados
Ensopado na baba
Do ódio dos homens
Escuma animal
De todos os cães esfaimados

As crianças e os moços
Trouxeram seu corpo
Sem vida pelas ruas
Arrastado pela garganta
E a gente dava esmola
Oferecida aos meninos
Dava como se fosse
Uma obra muito pia e santa

Assim terminam os anais
Do grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais

Escrita criativa 1

Escola de Português
Verão de 2017
Nivel 3
CURSO DE ESCRITA CRIATIVA

Período: 26 de junho a 7 de julho de 2017
Horário: 12:20-13:10h
Professor: Rui Zink
Email: rzink@middlebury.edu; zink.rui@gmail.com
Atendimento ao aluno: 20:30-21:30hs., Brackett

Este curso tem dois objetivos:
1)       usar estratégias da Escrita Criativa para aperfeiçoar o Português.
2)      Promover a escrita de um livro sobre a Escola de Português com o auxílio dos alunos.


Método: Jogar com as palavras. Brincar com a língua. Reinar. Contar histórias. Pensar: o que contar e como contar?  

Questões frequentes:
Q – Podemos ser criativos numa língua que não é a nossa?
Resposta: Sim  [  ]  Não  [  ]   Talvez   [  ]
 Q – Como?
R – fazendo-a nossa.
Q – Mas eu não sei escrever…
R – Isso julga você.

NOTA SOBRE A PARTICIPAÇÃO:
É essencial a participação do aluno, tanto escrita como oralmente. É mesmo o principal requisito. nota final não é só para o nível alcançado, é para o investimento real de quem participa. Serão tidos em conta o empenho e a evolução do aluno.

Plano de curso:
Dia 26 de junho: Escrever o quê? Um poema ou uma história? Dançar, jogar, reinar
27 de junho:  
28 de junho:  Quadrinhos: o texto e a imagem
29 de junho:  Humor: o drama humano. Quem ama anagrama
3 de julho: Um livro para crianças
4 de julho: Dicionário sério
5 de julho: Composição
6 de julho: As regras do jogo: dançar, reinar, navegar


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Aula 2: sotaques e etc.

1. Sotaques

Os sotaques dos Açores. Micaelense, sobretudo: o mais especial. Aqui.

Alcunhas alentejanas. Aqui.

2. Mudar o modelo, mudar o paradigma: o euro 2016 e a Eurovisao 2017.

Que Há-de Ser de Nós?
Sérgio Godinho

exibições
4.740
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento

Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã

Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos

Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós



Há um humor português?

Hermínia Silva (1907-1993) era muito engraçada. Só a sua presença fazia rir as pessoas. Cantava maravilhosamente, mas os seus comentários à parte eram lindos.

Ver aqui o Fado da Mariquinhas:

«Ela é muito prendada.
Tava a fazer uma colcha, toda em caroché,
diz que era para me oferecer a mim para eu estrear na noite de natal.
E tens ca pôr, tens ca pôr, tens ca pôr!
Tenho ca pôr o quê, mulher?
Tens ca pôr a colcha na noite.
Faltavam três dias para o natal e a colcha ainda tava em meio.
E ela coitadinha ali à foçanga à foçanga à foçanga
Ó mulher, pára lá com a costura
Quando entram as visitas de cerimónia assim como eu
para-se logo com tudo.

«Nós éramos aprendizas de alfaiate quando éramos miúdas
É claro que eu não percebia nada daquilo - nem queria
Eu andava a apanhar alfenetes
Ela não. Ela até já sabia gornecer - como ela dizia.
E eu - sou vedeta.
De maneira que ela faz assim cerimónia comigo.
E então respondeu:
Ó filha, eu até nem percebo desses protocóis.
Você não percebe destes proto-quê?
Cultura é comigo.
Sou eu e o Pedro Homem de Melo.
Só, mainada.
Uma bandida daquelas, da minha criação,
a dizer protocóis.
Mas em que rimance, em que rimance é que ela aprendeu os protocóis?Não foi na Crónica Feminina, concerteza.

«Eu ali cheia de punhos de renda, nha nha nhã, nha nha nhã,
e ela, pimba, protocóis.»



 É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
Janelas com tabuinhas

Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
Que vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado à guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra

Para se tornar notada
Usa coisas esquisitas
Muitas rendas, muitas fitas
Lenços de cor variada
Pretendida, desejada
Altiva como as rainhas
Ri das muitas, coitadinhas
Que a censuram rudemente
Por verem cheia de gente
A casa da Mariquinhas

É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
No fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra

P'ra guardar o parco espólio
Um cofre forte comprou
E como o gaz acabou
Ilumina-se a petróleo
Limpa as mobílias com óleo
De amêndoa doce, e mesquinhas
Passam defronte as vizinhas
P'ra ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
Janelas com tabuínhas

Plano geral das aulas

1ª semana (26-30 de junho)
1. Apresentação. Onde fica Portugal? Lisboa: a cidade de Ulisses ou Atlântida? Os poetas da cidade. Os bairros. Sérgio Godinho e Caetano Veloso: «Lisboa que amanhece». O cinema, o imaginário. Um país de poetas sentados, marinheiros em terra.
2. Muito mundo dentro de tão pequeno país. História e Geografia. Onde estamos determina para onde vamos? Os sotaques. Porto, Alentejo, Madeira, Açores.
3. Fernão Mendes Pinto e Camões: verso e reverso, irmãos complementares.  O 25 de Abril: uma pequena história do século XX.
4. Descobrimentos, navegação marítima, pirataria, tráfico de escravos. Império, colonização. Ideologia do lusotropicalismo. Uma visita à Mafalala (musseque de Maputo). Poemas de José Craveirinha. 
5. Balanço da semana. Exercício.
2ª semana (3 a 7 de  junho)
6. Portugal e o Brasil. Golpes de sorte e de génio idiota: D. João VI, Napoleão, D. Pedro. O que é isso de «países irmãos»? Ambiguidades, coisas boas e coisas más das relações históricas. 
7. Angola, Moçambique, S. Tomé, Guiné, Cabo Verde. Quem somos hoje? A CPLP funciona? As redes sociais e o futuro: re-unir o que está afastado. Cultura, política, economia. Macau, Timor e Goa: pontos de vista, equívocos, realidade atual. Vasco da Gama, o abade Faria, António Costa. 
8. Um país velho ou um país imaturo? Algumas surpresas no «pequeno país conservador». A lei portuguesa e os «brandos costumes». 
9. A comédia da identidade. Almada Negreiros e Júlio Dantas. O «manifesto anti-Dantas». Leitura encenada de A Ceia dos Cardeais.
10. Balanço da disciplina. Prova final.







contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda


Estou com sono...

E pronto: vamos a isso!