Um homem nunca chora
Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
Como chora um homem!
Pena
Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
Mas não me chames negro.
Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.
Nem desconfia
Todo o poeta quando preso
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.
O chefe da polícia
de defesa da segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.
de defesa da segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.
E nem desconfia.
Guerra
Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
…………………………………
Ah, cidades!
Favos de pedra
macios amortecedores de bombas.
resta o recurso
de se vestirem de luto
…………………………………
Ah, cidades!
Favos de pedra
macios amortecedores de bombas.
Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de
Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991,
tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais
importante prémio literário da língua portuguesa.
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