segunda-feira, 26 de junho de 2017

Há um humor português?

Hermínia Silva (1907-1993) era muito engraçada. Só a sua presença fazia rir as pessoas. Cantava maravilhosamente, mas os seus comentários à parte eram lindos.

Ver aqui o Fado da Mariquinhas:

«Ela é muito prendada.
Tava a fazer uma colcha, toda em caroché,
diz que era para me oferecer a mim para eu estrear na noite de natal.
E tens ca pôr, tens ca pôr, tens ca pôr!
Tenho ca pôr o quê, mulher?
Tens ca pôr a colcha na noite.
Faltavam três dias para o natal e a colcha ainda tava em meio.
E ela coitadinha ali à foçanga à foçanga à foçanga
Ó mulher, pára lá com a costura
Quando entram as visitas de cerimónia assim como eu
para-se logo com tudo.

«Nós éramos aprendizas de alfaiate quando éramos miúdas
É claro que eu não percebia nada daquilo - nem queria
Eu andava a apanhar alfenetes
Ela não. Ela até já sabia gornecer - como ela dizia.
E eu - sou vedeta.
De maneira que ela faz assim cerimónia comigo.
E então respondeu:
Ó filha, eu até nem percebo desses protocóis.
Você não percebe destes proto-quê?
Cultura é comigo.
Sou eu e o Pedro Homem de Melo.
Só, mainada.
Uma bandida daquelas, da minha criação,
a dizer protocóis.
Mas em que rimance, em que rimance é que ela aprendeu os protocóis?Não foi na Crónica Feminina, concerteza.

«Eu ali cheia de punhos de renda, nha nha nhã, nha nha nhã,
e ela, pimba, protocóis.»



 É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
Janelas com tabuinhas

Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
Que vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado à guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra

Para se tornar notada
Usa coisas esquisitas
Muitas rendas, muitas fitas
Lenços de cor variada
Pretendida, desejada
Altiva como as rainhas
Ri das muitas, coitadinhas
Que a censuram rudemente
Por verem cheia de gente
A casa da Mariquinhas

É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
No fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra

P'ra guardar o parco espólio
Um cofre forte comprou
E como o gaz acabou
Ilumina-se a petróleo
Limpa as mobílias com óleo
De amêndoa doce, e mesquinhas
Passam defronte as vizinhas
P'ra ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
Janelas com tabuínhas

Sem comentários:

Enviar um comentário