terça-feira, 27 de junho de 2017

3. Um país conservador?

O casamento.
Alemanha. 2017? 2018?
Portugal 2010.

O divórcio.

A IVG.

A minha casinha: o filme.
Versão dos Xutos e Pontapés: aqui.


O 25 de Abril
Trabalho duma escola. Aqui.
"Eu só queria um pónei" - uma memória do 25 de Abril de 1974. Aqui




O adamastor. Aqui.

Fernão Mendes Pinto:

 (...) O processo de que Mendes Pinto se serve para verberar os abusos cometidos pela nossa gente é engenhoso. Não faz ele as críticas em nome próprio: geralmente coloca-as, por artifício literário, na boca de nativos.
Algumas dessas personagens nativas são mero produto de ficção. Quem sabe até se as criou para não arranjar problemas com quaisquer pessoas? As palavras ásperas que por intermédio delas profere, como suas, dificilmente passariam impunes; mas, como dos aborígenes, ficavam sob a responsabilidade dos mesmos.

Uma destas figuras típicas é o menino prodígioa cujo pai António de Faria roubou, na ilha dos Ladrões, tudo quanto tinha. Feito prisioneiro, o menino viu-se amimado pelo pirata português, que prometeu criá-lo como filho. Perante esta atitude incoerente, disse-lhe a criança:

«Não cuides de mim, inda que me vejas menino, que sou tão parvo que possa cuidar de ti que, roubando-me meu pai, me hajas a mim de tratar como filho. E, se és esse que dizes, eu te peço muito, muito, muito que me deixes botar a nado a essa triste terra onde fica quem me gerou,porque esse é o meu verdadeiro pai,  com o qual quero antes morrer ali naquele mato, onde o vejo estar-me chorando, que viver entre gente má como vós outros sois».

Como alguém o repreendesse pelo que dizia, continuou:

«Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi a louvar a Deus, depois de fartos, com as mãos levantadas e com os beiços untados, como homens que lhe parece que basta arreganhar os dentes ao céu, sem satisfazer o que teem roubado. Pois entendei que o Senhor da Mão Poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves, quanto depois de mortos conhecereis, no rigoroso castigo da sua divina justiça».

Este menino não pode deixar de ser uma criação literária, até porque, nas expressões que usa, se assemelha a um profeta bíblico.


[Do blog «Literatura na Net», aqui.]

Fausto: por este rio acima.


Romance de Diogo Soares
Diogo Soares
O grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais
Comanda sessenta mil homens
De terras estranhas
Vencendo e lutando
Por quem paga mais
Eficaz nos sermões
Insinuante pois
Ganhou a simpatia
De príncipes e samurais
Já é governador
Do reino de Pegu
Mais forte do que o rei
Mais rico por golpes mestrais

Naquela cidade
Vivia um mercador
De nome Mambogoá
De fortuna sem fim
E naquele dia
O dia das bodas
Casava uma filha
Com Manica Mandarim
Diogo Soares passou por ali
Ao saber da festa
Felicitou noivos e pais
E a noiva tão linda
Ofereceu-lhe um anel
Agradecendo a honra
Por gestos puros e sensuais
Então o galego
Em vez de guardar
O devido decoro
Prendeu-a e disse-lhe assim
"Ó moça formosa
És minha, só minha
A ninguém pertences
A ninguém, senão a mim"

O pai Mambogoá
Ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha
Ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus
Os joelhos em terra
No retrato da dor
Pedindo e implorando num pranto
"Eu peço-te Senhor
Por reverência a Deus
Que adoras concebido
No ventre sem mancha e pecado
Não tomes minha filha
Não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão
Que eu morro tão abandonado"

Mas Diogo Soares
Mandou matar o noivo
Que chorava abraçado
À moça assustada
Tremendo
E a noiva estrangulou-se
Numa fita de seda
Antes que a possuísse
À força o sensual galego
A terra e os ares
Tremeram com os gritos
Do choro das mulheres
Tamanhos que metiam medo
E o pai Mambogoá
Pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino
Acorda a cidade em sossego
"Ó gentes Ó gentes
Saí como raios
Na ira das chuvas
Na ventania do açoite
E o fogo consuma
Seus últimos dias
E lhe despedace
As carnes no meio da noite"

Em menos de um credo
Numa grande grita
P'lo amor dos aflitos
Juntou-se ao velho o povo inteiro
Com tamanho furor
E sede de vingança
Arrastaram-no preso
Diogo Soares ao terreiro
E o povo a clamar
Que a sua veia seja
Tão vazia de sangue
De quanto está o inferno cheio
E subiu ao cadafalso
Cada degrau beijou
Murmurando baixinho
O nome de Jesus a meio

Seu filho Baltasar Soares
Que vinha de casa
O qual vendo assim
Levar seu pai
Lançou-se aos seus pés a chorar
E por largo tempo abraçados
No abraço dos mortais

"Senhor porque vos levam
Cruéis e vingativos
Senhor porque vos batem
E porque vos matam medonhos? "
"Pergunta-o aos meus pecados
Que eles to dirão
Que eu vou já de maneira
Que tudo me parece um sonho"

E foram tantas pedras
Sobre o padecente
Que este morreu bramindo
O rosário dos seus pecados
Ensopado na baba
Do ódio dos homens
Escuma animal
De todos os cães esfaimados

As crianças e os moços
Trouxeram seu corpo
Sem vida pelas ruas
Arrastado pela garganta
E a gente dava esmola
Oferecida aos meninos
Dava como se fosse
Uma obra muito pia e santa

Assim terminam os anais
Do grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais

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